sexta-feira, 18 de setembro de 2026
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João Carreiro: A Viola Que Atravessou Fronteiras e Deixou Sua Marca em Mato Grosso do Sul

A viola silenciou, mas a história não terminou.

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João Carreiro: A Viola Que Atravessou Fronteiras e Deixou Sua Marca em Mato Grosso do Sul

Em 3 de janeiro de 2024, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e o Brasil perderam um dos nomes que ajudaram a manter viva a essência da música sertaneja de raiz. Aos 41 anos, morreu em Campo Grande o cantor e violeiro João Carreiro, artista que transformou a viola caipira em uma das principais marcas de sua trajetória e conquistou uma legião de admiradores com sua voz grave, seu jeito irreverente e sua defesa da música sertaneja tradicional.

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João Sérgio Batista Corrêa Filho, artisticamente conhecido como João Carreiro, nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, em 24 de novembro de 1982. Mas foi em Mato Grosso do Sul que construiu uma parte fundamental de sua vida, especialmente em Campo Grande, cidade que escolheu para viver e onde também encontrou espaço para consolidar sua carreira.

Sua história é marcada por uma ligação profunda com o campo, com a cultura sertaneja e, sobretudo, com a viola.

A primeira viola e a influência da família

A relação de João Carreiro com a música começou ainda na infância.

Ele recebeu do pai seu primeiro violão e, posteriormente, ganhou do avô a primeira viola caipira. O instrumento acabaria se tornando muito mais do que uma ferramenta de trabalho: seria uma extensão de sua própria identidade.

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Durante a infância, João teve contato com a vida rural e com as tradições do interior. Cresceu ouvindo grandes nomes da música caipira, entre eles Tião Carreiro, Ronaldo Viola, João Mulato e Pardinho.

Tião Carreiro, considerado um dos grandes mestres da viola brasileira, exerceu influência tão importante sobre o jovem músico que ajudou a inspirar o próprio nome artístico.

João Carreiro carregaria essa referência por toda a vida.

A formação de uma identidade

Em meio às transformações da música sertaneja, João Carreiro seguiu um caminho próprio.

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Enquanto o mercado nacional avançava para novas sonoridades, o artista manteve a viola, a música caipira e as histórias do interior como elementos centrais de sua produção.

Não se tratava apenas de preservar o passado.

João Carreiro conseguiu apresentar a música sertaneja de raiz para uma nova geração, utilizando linguagem contemporânea, humor, personalidade e uma presença de palco que se tornou característica.

Foi nesse processo que surgiu a parceria com Capataz.

João Carreiro e Capataz

Ao lado de Hilton Cesar Serafim, o Capataz, João Carreiro formou uma das duplas que marcaram uma importante fase do sertanejo brasileiro.

A parceria ganhou projeção nacional e levou o chamado sertanejo bruto para grandes palcos e públicos de diferentes regiões do país.

Em 2009, a dupla lançou o álbum Os Brutos do Sertanejo, trabalho que consolidou ainda mais a identidade dos dois artistas.

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Vieram músicas que passaram a integrar o repertório dos admiradores do gênero, entre elas Bruto, Rústico e Sistemático, Xique Bacanizado, Faculdade da Pinga, O Remédio é Beber e outras composições que ajudaram a transformar João Carreiro em uma referência para quem defendia a música sertaneja tradicional.

Bruto, Rústico e Sistemático ganhou ainda maior projeção ao integrar a trilha sonora da novela Paraíso, da TV Globo.

A música alcançou um público que ultrapassava o circuito tradicional dos rodeios e das festas do interior e ajudou a apresentar João Carreiro para milhões de brasileiros.

Campo Grande e a construção de uma história

A relação com Mato Grosso do Sul tornou-se uma das marcas mais importantes da vida do cantor.

Campo Grande passou a ser sua casa.

Foi na capital sul-mato-grossense que João Carreiro viveu parte importante de sua trajetória pessoal e profissional, estabelecendo vínculos com músicos, produtores, fãs e com o próprio público do Estado.

Sua ligação com Mato Grosso do Sul também apareceu em sua música.

Campo Grande / Cuiabá é praticamente um retrato musical da ponte entre os dois lugares que marcaram sua vida: a cidade onde nasceu e a cidade onde construiu uma parte significativa de sua história.

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Além da capital, sua trajetória passou por outros municípios sul-mato-grossenses. Registros oficiais mostram apresentações contratadas pelo poder público em eventos culturais do Estado, demonstrando a presença do artista na programação de festas e celebrações regionais.

A viola como bandeira

João Carreiro não escondia sua opção pela viola.

Ao contrário.

Ele fez dela uma espécie de bandeira.

Seu figurino, sua maneira de cantar, suas composições e sua interpretação reforçavam uma identidade ligada ao universo rural e à cultura sertaneja tradicional.

Em uma indústria musical cada vez mais marcada por novas tendências, João Carreiro permaneceu fiel ao som que aprendeu a respeitar desde criança.

Sua voz grave e a sonoridade da viola tornaram-se sua assinatura.

Para muitos admiradores, João Carreiro representava a resistência de uma música que não queria perder suas raízes.

Os desafios e a reconstrução

A trajetória do artista também foi marcada por períodos difíceis.

A parceria com Capataz chegou ao fim depois de anos de sucesso, e João passou por um período de afastamento dos palcos.

Durante parte dessa fase, viveu em Sidrolândia, em Mato Grosso do Sul.

Depois, decidiu retornar à música em carreira solo.

O retorno trouxe novamente a viola para o centro de sua produção.

João Carreiro voltou aos palcos com a mesma personalidade e continuou defendendo o sertanejo de raiz.

Em 2018, participou do projeto Brutos de Verdade, ao lado de Jads & Jadson, aproximando sua trajetória de outra dupla de grande importância para o sertanejo produzido no Centro-Oeste.

A música Não Toco Não tornou-se também uma declaração de princípios: João Carreiro não abandonaria a viola.

O último show

A história de João Carreiro ganhou um capítulo de forte simbolismo no último dia de 2023.

Em 31 de dezembro, o cantor realizou seu último show em Pedra Preta, no Mato Grosso.

O detalhe torna a história ainda mais especial.

Pedra Preta tinha ligação com sua família e com a lembrança da primeira viola que recebeu do avô.

O instrumento que havia chegado às suas mãos quando ainda era menino acompanhou toda a sua trajetória.

E foi justamente em uma apresentação realizada no Mato Grosso, estado onde nasceu, que João Carreiro encerrou sua trajetória nos palcos.

Poucos dias depois, ele estaria em Campo Grande para realizar uma cirurgia cardíaca.

A despedida

João Carreiro morreu na noite de 3 de janeiro de 2024, em Campo Grande, após complicações decorrentes de uma cirurgia cardíaca.

A notícia provocou comoção entre artistas, familiares e fãs em diferentes partes do Brasil.

Campo Grande foi o primeiro cenário de sua despedida.

O velório foi realizado na Câmara Municipal da cidade, reunindo pessoas que fizeram questão de prestar uma última homenagem ao cantor.

Posteriormente, o corpo foi levado para Cuiabá, sua cidade natal, onde ocorreu outra cerimônia antes do sepultamento.

Entre Cuiabá, Campo Grande e Pedra Preta ficou desenhado o mapa dos últimos capítulos de sua história.

Cuiabá representava o nascimento.

Campo Grande, a vida construída.

Pedra Preta, o último palco.

O legado que permanece

João Carreiro deixou mais do que músicas.

Deixou uma identidade.

Sua obra representa uma ponte entre diferentes gerações da música sertaneja e demonstra que a viola continua tendo espaço em um mercado musical em constante transformação.

Ao defender o sertanejo tradicional, o cantor também ajudou a manter viva uma parte da memória cultural do Centro-Oeste.

Mato Grosso e Mato Grosso do Sul foram fundamentais nessa história.

O primeiro como território de nascimento e das primeiras referências.

O segundo como lugar escolhido para viver, trabalhar, cantar e construir relações que permaneceram até seus últimos dias.

É por isso que a trajetória de João Carreiro não pode ser contada apenas como a história de um cantor sertanejo.

Ela também é a história de um violeiro.

De um artista que decidiu não abandonar suas raízes.

De alguém que levou para grandes palcos a linguagem do interior, o som da viola e uma maneira particular de enxergar a música.

A viola nunca vai morrer

Depois da partida de João Carreiro, iniciativas de preservação de sua memória começaram a ganhar força em Mato Grosso do Sul.

Entre elas estão projetos ligados à criação do Instituto João Carreiro e homenagens destinadas a preservar sua história, sua ligação com a viola e sua contribuição para a música sertaneja.

No Circuito de Laço Comprido, em Campo Grande, também foi anunciada uma grande homenagem ao artista, com monumento e espaço destinado à preservação de sua memória.

Essas iniciativas mostram que João Carreiro continua presente não apenas nas plataformas digitais ou nas gravações que deixou.

Está presente nas rodas de viola.

Nas festas de peão.

Nos rodeios.

Nas comitivas.

Nas fazendas.

Nos palcos.

E principalmente na memória daqueles que aprenderam a gostar da música sertaneja ouvindo sua voz.

João Carreiro partiu cedo.

Mas sua viola ficou.

Ficaram suas músicas.

Ficaram suas histórias.

Ficou sua maneira de cantar.

Ficou a lembrança do homem que escolheu a música de raiz mesmo quando poderia seguir outros caminhos.

E ficou uma obra que continua atravessando as fronteiras entre Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o restante do Brasil.

A voz se calou.

A viola, não.

Enquanto houver alguém dedilhando suas cordas e cantando uma moda sertaneja, João Carreiro continuará vivo na música.

Porque alguns artistas fazem sucesso.

Outros deixam um legado.

João Carreiro deixou uma história.

E essa história continua sendo contada.

Exclusiva Folha do Estado Brasil

Por Wander Lopes
Jornalista – SRTE 1349/MS



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